ENOEVENTOS | por Oscar Daudt | 23.out.2010
Um jantar de Oro

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Gastronomia divertida

Combinamos, Lilian Seldin e eu, de conhecer o ORO, novo restaurante do jovem e estrelado chef Felipe Bronze, que fica no mesmo local em que residiu o efêmero restaurante XX, bem em frente ao Olympe. O lugar é muito bonito e logo impressiona por sua cozinha envidraçada e iluminada por uma luz magenta.

Inaugurado há duas semanas, a equipe forma um time de respeito, pois além do renomado chef, conta com nada menos do que três sommeliers. Apesar de jovens todos eles, são profissionais com respeitável experiência: Cecília Aldaz (ex-eñe), Clara Mei (ex-CT Brasserie e ex-Marina) e Lindenberg Junior (ex-Locanda e ex-Thérèze).

O cardápio oferece os Snacks (entre 17 e 26 reais cada), que são pequenos amuse-bouches para serem compartilhados por todos à mesa. Aí seguem os Primeiros e os Segundos Pratos (entre 25 e 59 reais cada). As porções são pequenas e eu recomendo pedir os dois, pois uma mesa ao lado da nossa, que escolheu pedir um prato só, saiu reclamando de fome. E, finalmente, as sobremesas voltam ao esquema de compartilhar entre todos, mas não me recordo dos preços.

Existe ainda um menu degustação, chamado de Menu Oro, com 9 etapas ao preço de 215 reais! Foi essa a nossa escolha. Como juntaram-se a nossa mesa Mariana e Yann Lesaffre, do Mr. Lam, o chef foi ficando cada vez mais empolgado, e as surpresas não constantes do menu iam se sucedendo. Hoje, ao fazer a contabilidade dos pratos, constatei que a quantidade quase dobrou e degustamos, na verdade, 17 impensáveis etapas.

As obras de Felipe Bronze são muito bonitas, apresentadas em pratos que mais as enfeitam, utilizam ingredientes surpreendentes - valorizando produtos regionais brasileiros - misturam texturas e temperaturas, e ao fim de tudo também... divertem. Alguns pratos têm tantos componentes que fica difícil decorar as explicações do chef e deve-se muitas vezes recorrer aos companheiros de mesa para se saber o que se está comendo em detalhes. Outros são difíceis de se pegar, mesmo utilizando-se as mãos, e fazem uma lambança. Felizmente, a toda a hora chega uma lavanda para consertar o estrago. Um vem embrulhado em papel comestível, outro vem em pura celulose e a atenção deve ser redobrada para não confundir os dois. As sobremesas são lúdicas e atraentes.

Tantas foram as etapas que nem dá para discorrer sobre elas todas. Os leitores farão melhor se, em vez de lerem minha descrição, admirarem as fotos abaixo e babarem por antecipação... Dos 4 snacks, dois eram sensacionais: a Tempura de Ovo de Codorna com gema mole e ar de trufas servida numa original embalagem para ovos, aquelas de supermercado; e os Profiteroles de Queijos do Brasil e farofinha de licuri caramelizado (licuri é o coquinho de uma palmeira típica da Caatinga).

Dos pratos quentes - muito embora essa seja uma classificação errônea, pois alguns eram quentes, outros eram frios e muitos eram uma mistura de temperaturas - eu me encantei com vários:

os Lagostins com Creme de Pistaches e Limão Siciliano com alcachofras fritas era um show;

o Bacalhau à Baixa Temperatura com Crocante de Presunto Bellota com batatinhas, espumas de tomate defumado e azeite extra virgem era uma mistura de ingredientes tal que funcionava perfeitamente quando você conseguia colocar no garfo um pedacinho de cada coisa;

no Tartare de Mignon com "Gema" de Parmesão, fumaça de churrasco e batatinhas fritas, o espetáculo eram os aromas; o prato chegava coberto e quando a tampa era retirada, os aromas defumados tomavam conta, não só da mesa, como do restaurante inteiro; e era divertido estourar a "gema" de parmesão deixando-a escorrer sobre a carne;

tanto o Porquinho de leite quanto a Costela 12 horas eram deliciosos, muito embora, a essa altura do campeonato, eu já estivesse pedindo arrego.

Não é o meu caso, mas para quem gosta de sobremesas, o jantar é para se lambuzar: o Tudo de Caramelo e o Tudo de Chocolate eram compostos, cada um, de 6 sobremesas diferentes, pequeninas mas numerosas, para todos poderem experimentar. Tinha até churros e algodão doce (releituras, é claro). Eu que normalmente passo por cima dessa etapa, não resisti e experimentei vários, tendo em vista que os tamanhos de bocaditos, a variedade e a apresentação impecável e divertida não me permitiram escapar ileso. E é nessa hora que o chef vem à mesa, e feito um alquimista, envolto em fumaças e com uma colher de condão, finaliza um - sei lá - sorvete geladinho, com uma casca crocante que se derrete na boca. E quando eu pensei que havia terminado, ainda vieram os chocolatinhos para acompanhar o café, alguns com avelãs e outros com o brasileiríssimo licuri.

É uma exposição, um parque de diversões, uma aula de criatividade e de brasilidade, tudo junto incluído e que vem com um certificado de paciência do chef, pela montagem de tão intrincadas esculturas gastronômicas! Quando lançarem o livro Os 101 jantares para comer antes de morrer, com certeza ele estará na capa.

Oscar Daudt